A Separação de Resíduos Dentro dos Prédios

 

Aires Loureiro

23-Ago-2012

 

 

 

Caros leitores, venho falar-vos, ao correr do teclado, dos ecopontos dentro dos prédios de Lisboa! Que um idealista se tenha lembrado disso, não é nada censurável. O que se faz com boas intenções deve ser respeitado. O que não posso é aplaudir!

 

 É que aquilo é deprimente! Em vez de se libertarem os prédios de contentores, meteram-se lá agora três, para diversas espécies de resíduos. É suposto que os habitantes dos prédios são civilizados e zelosos e, portanto, que vão cumprir as regras de separação e acondicionamento dos resíduos e que o senhorio está ali para pôr os contentores na rua e recolhê-los e que se lá não mora os inquilinos o farão.

 

O idealismo dos três contentores esqueceu-se da realidade, qual seja, os inquilinos que ao longo de muitas décadas foram convencidos pelos poderes instituídos de que tinham direito a tudo e nenhuns deveres, senão o de pagarem um simulacro de renda administrativamente estabelecido, têm um gosto mórbido em fazer quanto pior melhor. Degradar os prédios é para eles uma glória; torná-los em estábulos descuidados uma rotina habitual.

 

Lá tenho os três contentores. E contemplei a ideia municipal com um sorriso amarelo, mas colaborei. Atravanquei o hall de entrada do prédio com aquilo, falei com os inquilinos e afixei as instruções que o município forneceu junto dos contentores e um aviso feito por mim dizendo que os inquilinos deveriam cumprir a separação dos resíduos, colocá-los em sacos seguros e fechados no contentor indicado e quanto aos resíduos da cozinha serem acondicionados em sacos herméticos devidamente fechados e nos dias indicados porem o respectivo contentor na rua e recolhê-lo no dia seguinte, dado que o senhorio não mora no prédio nem em Lisboa.

 

E como o regulamento dos resíduos diz isso mesmo mas não diz qual dos inquilinos terá essa obrigação, exortei-os a qualquer um deles, ao entrar e sair por outras causas, se dignasse fazer esse trabalho e acrescentei que é justo que quem produz os resíduos se ocupe deles. O resultado não se fez esperar e o cheiro nauseabundo impôs-se como divisa de um país cronicamente tonto. Os inquilinos, habituados a pagar menos de renda do que de TV cabo e a gastarem 4 ou 5 vezes mais em carne para alimentar gatos vadios que, assim, proliferam nos logradouros às dezenas, trazem o lixo em sacos de plástico das compras do continente, a pingarem molho pelas escadas abaixo e chapam com aquilo num contentor qualquer… e seguem! O cheirete não os incomoda, parecem até gostar daquilo por, na inteligência que têm, pensarem que o prejudicado é o senhorio, que reside a 200 kilómetros de distância e sendo que o prédio não tem, nem tem nada que ter, porteiro. De vez em quando algum inquilino mais decente vai pondo os contentores na rua e aquilo vai andando, assim, numa porcaria institucionalizada pelo município!

 

Estrategicamente colocados

 

Houve tempos, há décadas, antes mesmo da instituição da propriedade horizontal, que todos os prédios tinham porteiro ou eram administrados pelo dono que nele habitava. Percebia-se a existência de contentores dentro do prédio, embora fosse desde início uma porcaria medieval. Depois foi a evolução dos tempos, com o regime da propriedade horizontal, a limitação da obrigação de porteiro a prédios de maior dimensão e a usurpação dos prédios e a humilhação dos seus donos com um regime de arrendamento próprio de larápios. Impunha-se que o município acabasse com a porcaria medieval de contentores de lixo dentro dos prédios e adoptasse o sistema dos municípios geridos por gente inteligente, como por exemplo, o de Coimbra.

 

Aqui, em Coimbra, há contentores públicos, estrategicamente colocados em lugares públicos, e ecopontos para os resíduos como vidro, cartão e outros. Os contentores públicos são funcionais e estão colocados em sítios adequados, e seguros por uma engenhoca metálica extremamente fácil de levantar e recolocar aquando da recolha do lixo pelos funcionários municipais. A cidade de Coimbra é limpa, asseada, civilizada!

 

Bastava aos mais limitados lisboetas copiarem o sistema, este de Coimbra ou outro qualquer decente. E se quisessem um modelo sofisticado para armar aos cucos, até podiam copiar o de Portimão ou outro congénere, que a malta paga!... Mas instituírem, preservarem e aperfeiçoarem a porcaria predial é demais! Porque será que eles não descobrem que aquilo dos contentores nos prédios está errado?! E porque será que eles não percebem que nas outras cidades, como p. ex. Coimbra, está bem? Coimbra é mais pequena do que Lisboa, mas tem características morfológicas semelhantes, em cordilheiras e anfiteatros, com grande parte antiga da cidade como nos bairros lisboetas e com colinas e tudo! E a questão dos resíduos funciona exemplarmente. Um dia destes vou retirar os contentores do meu prédio por razões de decência e sanidade e recomendar aos inquilinos que arejem o lixo atirando-o pela janela para a rua! À moda medieval!

 

*  * *

 

Quem tiver influência, faça o favor de meter uma cunha para que acabem as lixeiras obrigatórias dentro dos prédios. Ficará na História de Portugal como alguém que acabou com a obrigatoriedade de lixeiras nas entradas dos prédios, como ficou o Pina Manique por ter iluminado Lisboa. Este município, o de Lisboa, bem precisa de ser iluminado!

 

 

 

FIM

  

 

  
 
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