A Psicologia do Proprietário

 

Artur Soares Alves

19-Set-2013

 

 

 

Há algum tempo discutia-se a reabilitação urbana entre proprietários e outras pessoas conhecedoras do ramo imobiliário. Num certo momento um proprietário e senhorio disse que, mesmo sem apoios do Estado, iria reabilitar um prédio seu. A afirmação gerou algum debate tendo um dos presentes argumentado, por simples estimativa, que essa obra é financeiramente irracional. Ao que o proprietário respondeu que lhe dá gosto ver o prédio com bom aspeto.

 

Estairracionalidade, ou como se queira chamar-lhe, é uma característica do proprietário, faz parte da sua psicologia. É isso que muita gente tem dificuldade em compreender — a ligação profunda entre o proprietário e a propriedade.

 

Em todo o caso tem interesse realçar que esta ligação afinal tem exatamente as mesmas características que o cidadão livre tem com a sua Pátria. Na verdade o patriota mesmo quando sofreu tratos de polé às mãos do governo, nem por isso leva a ofensa ao ponto de se voltar contra a Pátria. É mais frequente que o sofrimento aprofunde a sua ligação espiritual com o que ele considera uma entidade acima das paixões humanas. É deste modo que se exprime Fernando Pessoa quando o homem do leme fala para o Mostrengo:

 

"Aqui ao leme sou mais do que eu:

"Sou um Povo que quer o mar que é teu;"

 

Cosmopolitas de lareira

 

É isto que é muito difícil de entender para os cosmopolitas de lareira que hoje em dia comandam a política e a sociedade em geral. Com mais facilidade compreendem os comportamentos mercenários de quem segue apenas o dinheiro ou o penacho. Todavia, uma sociedade cujo valor único seja a busca do rendimento terá muita dificuldade em manter-se de pé. E isso já nós sabemos porque o vamos sentindo nos dias de hoje. Numa sociedade movida apenas pelo lucro a palavra dada de nada vale e um contrato será cumprido apenas e só pela força.

 

O que era verdade ontem, hoje é uma falsidade; o que ontem era uma rotunda mentira afinal tornou-se uma verdade sagrada. O herói de hoje amanhã torna-se num vilão. Nada é seguro, só o lucro dita o certo e o errado.

 

Porque a propriedade e mais do que o lucro que ela proporciona é que foi possível que o congelamento das rendas não se tenha tornado numa fonte de conflitos reais. Desde sabotar os esgotos até atacar a estrutura do prédio muitas são as possibilidades para despejar um prédio que só da prejuízo. E se não fosse o proprietário a promover essas ações de sabotagem logo alguma organização criminosa se encarregaria de o fazer, eventualmente comprando os prédios a baixo preço para os despejar em seguida[i].

 

Ainda se chegou a algo vagamente parecido com as empresas que compravam prédios em nome de emigrantes que depois nominalmente recuperavam as casas. Em todo o caso os resultados não foram muito grandes e a atividade cessou. Genericamente ao proprietário repugnavam este tipo de esquemas.

 

O congelamento representou para o proprietário uma dupla agressão. Não somente foi privado da legítima remuneração do seu investimento como teve que assistir a degradação do imóvel. Ainda assim, não foram poucos os proprietários que desviaram dinheiro doutras fontes para que a degradação não fosse total.

 

Nada disto compreendem os tais cosmopolitas de lareira. Mas também da Pátria sabem pouco e quando usam o adjetivo "nacional" fazem-no como quem peca contra o segundo mandamento, isto é, invocam-no em vão.

 

Esta forma específica de relação entre o proprietário e a propriedade vem do objetivo que levou à sua aquisição, a saber, como forma de corporizar a poupança e garantir uma velhice decente. Portanto, é uma ligação a longo prazo que esta em causa. Uma ligação que se transmite aos herdeiros e que moralmente ultrapassa a duração da vida terrena.

É muito diferente do investidor impessoal que compra ações de uma empresa que só conhece de nome, baseado em dados da respetiva performance.

 

Enquanto a propriedade traz um rendimento modesto ao proprietário vai, ao mesmo tempo, servindo as necessidades dos seus concidadãos. É capital para ser usado na criação de nova riqueza — e isto quer seja um espaço industrial ou comercial, quer seja a indispensável casa de morada do trabalhador. E esta a sua função social, designação que alguns querem apropriar para encobrir o propósito pouco nobre do confisco ou cardanho.

 

Mas isso também nós sabemos embora ao cosmopolita de lareira falte entendimento que chegue para o abarcar.

 

 

FIM

 

 

 



[i] Sem querer dar ideias, por exemplo, após o despejo de um apartamento pô-lo à disposição de marginais que tornem impossível a vida no prédio.

 

 

  
 
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